sexta-feira, 25 de abril de 2014

Afogado

Ah, Anna…
Aquela manhã nasceu turva, preguiçosa, como se o sol dissesse que não queria acordar. Não era dia de sair da cama. Eu devia ter escutado! Mas sou “teimoso e cabeça-dura”, você dizia. Acho que não sabia o poder e domínio que possuía sobre mim. Quisera eu poder ensinar a minha menina dos olhos tristes que a vida é mais que um dramalhão mexicano ou uma nota mal conduzida por um maestro charlatão. Queria a chance de sentir a vibração do seu sorriso, o cheiro do seu cabelo; poder ver, mais uma vez, seu andar graciosamente desajeitado, toda a sua complexidade e defeitos, transformados em Anna. Só mais uma vez! Mas você se foi…

Mudou de mim, mudei de você, nós (nos) mudamos.

E o céu estava triste, carregava meu pesar. O cheiro de café fresco não invadiu meu quarto; o banheiro arrumado anunciou sua ausência. Desocupou seu lado do guarda-roupas, arrumou o lado da cama, deixou a porta entreaberta, esqueceu de esvaziar meu coração. Nuvens negras tomaram conta de mim, desaguaram lá fora, chovi em meu quarto, que costumava ser ocupado por nossos corpos nus, risos abertos, gemidos sufocados de prazer.

O pesar de nosso sepultamento sangra meu coração e lava a minha alma. Espero um dia entender seus rompantes!

Suplicantemente seu,

Fred.

(Viviam Baddini)

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